24
Jul 08

 

    (cruzeiro seixas)

 
No mando da voz que é minha
Com o pensamento que avinha
Dito bem alto o meu lema
Sai de mim, lento e solto
E num ímpeto revolto
Explodem palavras lavadas
De virtudes dizimadas
 
Demora o grito da injustiça
Que em nosso âmago atiça
A fúria da impotência
Fortalece quem lidera
E cegamente se apodera
Das vísceras como os abutres
Com as palmas dos ilustres
 
Os olhos não têm que ver
A boca não tem que comer
É mais além o caminho
Os olhos têm que arrebatar
A boca não tem que calar
Falsos sábios não vamos ouvir
A máscara hipócrita tem que cair.
 
Futuro acorrentado e suspenso
Neste emaranhado tão denso
Um País que é meu e não quero
Tortura a alma da gente
Ver um povo de sangue quente
Quieto, descrente, entorpecido
Num tempo que se quer resistido
 
Lamúrias não remedeiam
E a inércia premeiam
Mordaz não basta ser
Levantemo-nos deste chão
Saibamos que uma só mão
Erguida num braço forte
Muda a vida, muda a sorte!
Ausenda Hilário

 

publicado por Utopia das Palavras às 17:32

         (andré breton)

Trago na boca o sabor
E nos olhos o teu aceno
No corpo o teu calor
Embriagante e doce veneno
 
Nas árvores a batida do vento
São queixas do teu amor
Não me foge o pensamento
Trago na boca o sabor
 
Deixa-me lembrar-te assim
Como água de um rio ameno
Que trago dentro de mim
E nos olhos o teu aceno
 
Invento asas para te fugir
Num poema te quero por
Nego se um dia sentir
No corpo o teu calor
 
Mentira, sonho inventado
Dentro do meu peito sereno
São brasas de fogo alado
Embriagante e doce veneno
Ausenda Hilário
publicado por Utopia das Palavras às 17:16

19
Jul 08

 

Não há poesia
Quando me rasgas no peito
A raiva que te enlouquece
E do alto do teu pedestal
Desces para me ignorar
Não há poesia
Quando os meus dedos te não tocam
E jazem frios
Quando eu, nua da minha alma
E tu me cobres de preconceito
Não há poesia
Quando o teu sorriso
É para mim um embuste
E a minha mágoa infinda
Não há poesia
Quando bradas num grito
E amordaças no meu o teu desejo
Não haverá poesia
Enquanto eu, poeta
Querendo ser o teu poema
Não o for!

          Ausenda Hilário

publicado por Utopia das Palavras às 18:02

12
Jul 08

(alvaro cunhal)

 
Chão do meu chão
Chão de ter e que partilho
De venturas e abnegação
E que determinada, trilho
 
Chão vestido de ternura
Doce amalgama florida
Que transportas pura
As asas da minha vida
 
Nas tuas mãos, amargura
Sou chão de riachos pungentes
Socalcos de pedra dura
Cândidas, descendo correntes
 
Meu chão de sustento
Que brotando o meu pão
Elevas no teu lamento
Nas minhas mãos o perdão
 
És chão quando me amparas
No desalinho dos meus passos
Quando na escuridão me agarras
Volto a encontrar os meus laços
 
Venda-me os olhos que eu caminho
Chão de forja feito aço
Confio com alento e carinho
Quando sinto o teu abraço
Ausenda Hilário

 

publicado por Utopia das Palavras às 16:52

Um dia gostava de ter
Um lugar ensolarado
Onde pudesse fazer
Da vida mais um bocado
 
Um lugar onde se visse
Da janela as estrelas
E toda a gente sorrisse
Ao ver o brilho delas
 
Um bocado de terra
Onde pudesse enterrar
Os motivos da guerra
E com a discórdia acabar
 
Lugar com rios e montes
Para lá poder trabalhar
Multiplicava as fontes
Para a sede saciar
 
Lugar com muitas casas
E com vizinhos também
Ás crianças dava asas
A todas que o mundo tem
 
Um lugar com lindo nome
Para poder chamar
Na terra não havia fome
Se eu pudesse mandar
 
Um lugar imaginário
Mundo que eu sempre quis
Virava o globo ao contrário
Fazia um planeta feliz
Ausenda Hilário
 

                                                     (Carlos Carvet)

 

publicado por Utopia das Palavras às 16:15

08
Jul 08

(no seguimento do que o Miguel Beirão postou

no "Balada da Liberdade")

 

MÁ LÍNGUA II

 

É preciso que o povo entenda
E levante a sua voz
Só se resolve a contenda
Com uma luta feroz
 
Eles impõem as leis
Porque têm a maioria
E os poderosos fieis
Enriquecem dia a dia
 
Sem combustível é duro
A gente governar a vida
É um sadismo puro
E dificuldade acrescida
 
Voltar atrás talvez consiga
De burro voltar a andar
Faz lembrar história antiga
Recuo em vez de avançar
 
Se aumentarem a palha
E criarem novo imposto
Não há nada que nos valha
Andamos a pé que é um gosto
 
Com a vida tão abalada
Até parece bizarro
Multas por tudo e por nada
Até por fumar um cigarro
 
E se saúde me falta agora
Ao hospital vou parar
A taxa moderadora
Lá vou eu ter que pagar
 
E se ficar internada
Pago uma conta daquelas
É como ficar hospedada
Em hotel de 5 estrelas
Ausenda Hilário
 
publicado por Utopia das Palavras às 15:47

"Balada da Liberdade" livro de Miguel Beirão, prefácio de minha autoria e capa de Dorabela Graça
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